Sobre
Com o ponto de partida do conhecido mito grego, a obra A queda de Atlas se constitui em um enorme origami de aço e concreto de quase sete toneladas que parece levitar, preso ao solo por apenas um conjunto de nove fios de aço, em uma ilusão óptica que faz crer que esses cabos não sustentam o objeto, mas simplesmente o impedem de desgarrar-se do chão rumo aos céus. Por meio da contraposição entre peso e leveza, entre massa e flutuação, entre mundo externo e universo interior, entre opressão e liberdade, a obra pretende, então, materializar o espírito dos (insanos) tempos em que foi criada.
Ainda que nas fronteiras entre Escultura, Engenharia, Instalação e Arquitetura, a obra passa ao largo da indefinição. É, antes, peça de muitas definições, capaz de manifestar o seu propósito em diferentes linguagens e de dialogar em variadas modalidades de interlocução. Concebida no formato de uma tensigridade – e, portanto, na vereda aberta por Karlis Johansons, Buckminster Fuller e Kenneth Snelson –, A queda de Atlas, ao dar forma estática e estética à gravidade, torna visível o equilíbrio das forças e as coloca, conceitualmente, como uma poderosa paráfrase para o que o filósofo sul-coreano Byung-Chul Han tão bem definiu em A Sociedade do Cansaço.
A observação de Chul Han sobre a substituição da Sociedade Disciplinar de Foucault pelo que chamou de Sociedade de Desempenho desnuda a realidade performática que nos é colocada pelo século XXI, realidade essa que desloca o eixo de controle antes operado unicamente, de maneira externa, pelas instituições – por meio da regra, da proibição e da repressão – para o próprio indivíduo, que agora exerce os fetiches da contemporaneidade – produtividade, meritocracia, performance e positividade – de maneira totalmente voluntariosa. Ainda segundo Chul Han, por meio de toda essa autocobrança por eficiência e de toda essa incessante perseguição de uma realidade idealizada na hiperconexão das redes, as pessoas têm se sentido cumulativamente sobrecarregadas e extenuadas, de maneira crônica e sem um agente objetivamente definido, pois o prisioneiro agora se tornou a sua própria sentinela. E, assim, no sequestro do imprescindível espaço interior para a contemplação, a sociedade tem conhecido os grandes males do novo século: a depressão, a ansiedade e o esgotamento.
A queda de Atlas propõe, então, novamente em um paralelo simbólico com a tensegridade e a sua incorporação não por meio de combate, mas, sim, de aceitação incondicional das forças na natureza, um aceno para que se repense e, consequentemente, para que se reavalie o peso que tanto oprime a sociedade contemporânea. Ao colocar, sob a sombra de sua colossal massa levitante, o singelo conforto de um balanço, a obra convida os seus observadores a que transformem, ainda que por um momento, essa fantasia de eterno autoflagelo em um ato de descompromisso, de embalo, de devaneio. Intrigante reação essa que, diga-se, leva alguém a se pendurar em uma peça que, por sua vez, também se encontra pendurada em algo massivo e que parece não se pendurar em lugar algum.
Em um único ato, esse instante compreende em si o propósito de toda a experiência.
Anderson Schneider
Anderson Schneider (Ponta Grossa - PR, 1974) vive e trabalha em Brasília, DF. Arquiteto e Urbanista formado pela FAU-UnB (1997), especialista em Gestão de Projetos pelo IESB (2017) e especialista em Projetos Paramétricos e Design Digital pela PUC Minas (2024), iniciou carreira como fotógrafo em 1998 e aprendeu muito do pouco que sabe no mundo, enquanto fotografava tribos Xavante no Alto Araguaia, garimpeiros na Selva Amazônica, refugiados no Curdistão, Xiitas e Sunitas em um Iraque em guerra e desabrigados em um Haiti devastado pelo terremoto de 2010. A partir de 2014, começou também a experimentar o exercício da Arquitetura como base para a pesquisa da dinâmica entre o material e a imaterialidade, e como essa dualidade conforma a percepção do observador acerca do espaço à sua volta. Desde então, divide seu tempo entre a Gerência de Arquitetura do Supremo Tribunal Federal e a Direção Criativa do Estúdio Monada, refúgio no qual costuma se perder entre xícaras de chá e longas conversas sobre a transitoriedade, a incompletude e a imperfeição como valores intrínsecos à plenitude da vida.
Do mito
a exaustão contemporânea
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